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Um coelhinho de chocolate e um amor infinito.
 
Um coelhinho de chocolate e um amor infinito.
 
A segunda longa-metragem de Vincent Gallo marca o regresso do realizador, sem pudores técnicos ou qualquer proximidade à inspiração da cena de Hollywood, com uma história perturbante que nos afecta os sentidos.

Vincent Gallo é um dos realizadores mais interessantes da actualidade, não só pela capacidade de assumir diversas funções na produção cinematográfica, como pelo prodígio na criação de filmes dotados de um realismo intenso. Os seus filmes mais recentes são histórias que nos provam que o cinema imita a realidade, tornando-a admirável, no predomínio da cor de cada personagem, no silêncio com que se constrói parte dos diálogos, na sequência inevitável do jogo entre personagens ficção e personagens reais.

Em 1998 realizou “Buffalo 66”, revelando uma polivalência de atributos, a característica que se poderá entender como a marca do fascínio que Vincent Gallo desperta entre o público. “Buffalo 66”, o seu trabalho mais conhecido, mostrou-nos o artista capaz de interpretar e realizar um guião escrito por si, uma história sobre desajustes familiares, talvez uma metáfora da própria América, inspirada em episódios vividos no seio da sua família. Foi um filme que nos deixou incapazes de racionalizar a perturbação dos sentidos, tão própria daquilo que entendemos por arte.

Este ano, apresentou “The Brown Bunny”, uma longa-metragem que não mereceu elogios da crítica americana, talvez ainda pouco habituada a filmes existenciais, mais preocupada com a promoção das histórias pela sua vertente sensacionalista que, no filme de Gallo, se revelou na cena final de felatio de Chloë Sevigny.

Actor, produtor, realizador, montador, músico e fotógrafo do seu filme, Vincent Gallo conseguiu imprimir nesta obra um carácter de personalização tal que, “The Brown Bunny”, quase se pode classificar como um dos filmes mais melancólicos do cinema recente. Trata-se de uma história de um homem em profunda crise afectiva que tenta (re)encontrar a mulher da sua vida. Da captação das imagens à invulgar escolha de planos, entre o som e a sua total ausência e particularmente, da palavra que corta o silêncio à ausência de diálogos, tudo se conjuga para expressar o devaneio de Bud Clay. A interpretação de Gallo, traduz-se num roteiro intimista que nos convida a partilhar não só a viagem física, um coast to coast pelas estradas norte americanas, como a viagem interior, experienciando os seus próprios pensamentos ao som de uma banda sonora envolvente, acompanhada de uma interessante estética de concepção e montagem das cenas.

A tão falada cena de sexo oral só vem reforçar esta transparente tristeza, dá um novo sentido à história e imprime-lhe um novo ritmo, para emocionalmente, se entender “The Brown Bunny” como um irresistível plano aberto sobre os sentimentos. Bud e Daisy estão apaixonados e isso percebe-se na declaração de amor que conduz ao felatio, sexual e apaixonadamente verdadeiro, imagem de um amor impossível de concretizar. Uma vez. Outra vez.

Em “The Brown Bunny”, Gallo não se re-inventa, mas inova a acepção clássica do filme, pois tanto o guião, como a evolução da trama se traduzem numa experiência pessoal e quase indecifrável. O filme tem um esquema narrativo pouco tradicional, dependente acima de tudo, da interpretação levada ao limite que Gallo e Sevigny conseguem fazer, resultando num road movie sentimental, tocante e em alguns momentos, profundamente enternecedor.(Paula Cordeiro)
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