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Um rapaz mal-educado?...
 
Um rapaz mal-educado?...
 
As características do registo cinematográfico de Pedro Almodôvar fazem dele um dos realizadores europeus de maior notoriedade, com um estilo já reconhecido em Hollywood. A sua mais recente realização tem sido associada a um registo autobiográfico, talvez resultado da sua passagem por diferentes internatos durante os primeiros anos da sua formação escolar. Contudo, «La Mala Educación» não será apenas um filme sobre a sua vida, muito menos uma critica à igreja católica, como em alguns casos já foi anunciado. Dez anos depois das primeiras ideias para o argumento, Almodóvar conseguiu eliminar o supérfluo e os elementos directamente autobiográficos, para chegar a esta peça que revela, embora de forma velada, parte dos valores da moralidade tradicional e da movida transgressora que sempre coexistiram em Espanha e na vida de Pedro Almodóvar.

Depois de abrir, fora de competição, a 57ª edição do festival de Cannes e da estreia em França, a crítica tem vindo a apontar «La Mala Educación» como um filme complexo, que se afasta dos últimos melodramas do realizador, mas mantém a intensidade de argumentos anteriores. Na realidade, percebe-se que não é o espectáculo das emoções que muda em Almodóvar, apenas o ângulo da câmara e a forma de contemplação da imagem. O resultado é um filme sublime, pela música que acompanha as imagens e pela expressividade na interpretação que os actores emprestam a algumas personagens, da qual depende, em grande parte, a explicação da história que estamos a viver.

A sua discreta estreia em Portugal, talvez por ter coincidido com a apresentação de mais um blockbuster de produção norte-americana, não deu a Almodóvar o destaque que o filme merece. Já é sabido que não é um filme cativante, ou que nos faça perder de amores pela tela. «La Mala Educación» traça um percurso complexo. É uma narrativa intricada que parece procurar constantemente a arte de desagradar, para nos fazer pensar sobre as imagens e nos deixar envolver por uma história dentro da própria história, contada a vários tempos e com variações de personagens interpretadas pelo mesmo actor.

Do mexicano Gael Garcia Bernal, actor principal de «La Mala Educación», muito se tem falado. Deu nas vistas em «Amor Cão» e em «E Tu Mamã También», a história de uma viagem pelo México de dois amigos que se fazem acompanhar de uma mulher mais velha para, em conjunto, aprenderem novos factos sobre sexo, a vida e a amizade. Vestiu a batina em «O Crime do Padre Amaro», para contar uma história de pobreza, intriga e corrupção, num cenário pálido envolto de momentos de escuridão, como se a rudeza da fotografia fosse por si, uma metáfora para o cerne da questão essencial do filme.

«La Mala Educación» também se refere a uma metáfora da realidade, da culpa e do desejo. A história transporta-nos entre décadas diferentes, definidas pelas personagens e a sua própria reinvenção. Dois rapazes partilham um internato chefiado por padres na Espanha opressora e provinciana da década de sessenta. O amor e a violência estão presentes em todo o filme, no colégio partilhado pelos dois e mais tarde, numa outra Espanha, libertina e libertadora que, nos anos setenta, faz encontrar realizador e actor, para reescreverem e filmarem a história da sua infância, do seu amor e do amor pelo cinema.

Os anos setenta surgem de forma muito intensa e dão uma força espantosa às histórias que se entrecruzam em «La Mala Educación». A narrativa complica-se quando se remexe no presente das personagens (ou seria no passado?), fazendo surgir novos elementos, num complexo esquema que nos leva ao ponto de perder o original para criarmos um novo fio condutor, notável pela intriga que encerra em si mesma o abismo da narrativa principal. Ao longo do filme, a personagem central é também o princípio de histórias dentro da história, de contínuos amores e desamores. Esta personagem desdobra-se criando novas personagens (ou apenas variações de uma mesma personagem, de acordo com a interpretação que lhe queiramos dar) adicionando elementos que enriquecem a história e dando-lhe uma perspectiva recheada de referências homossexuais, com um cenário que tem na Igreja o seu principal argumento, representando de forma muito clara a sexualidade reprimida e alguma hipocrisia tão típica do clero.

É um facto que há inspiração em episódios da sua vida e aparentes críticas ao clero, mas este Almodóvar filma as contradições da sétima arte e, acima de tudo, da própria sociedade. Há claramente uma imagem negativa, mas não completamente improvável, do que uma ameaça à Igreja pode representar, pois a dada altura, o sublime torna-se atroz. Almodóvar mostra-nos um filme feito de paixão que se transforma numa película violenta, pela forma como o medo, o desejo e o dinheiro, conseguem corromper os sentimentos mais puros. «La Mala Educación» assume-se como uma intriga diabólica, cruel para os sentidos, por revelar a besta humana que pode haver em cada um de nós. No final, a máquina da sétima arte entra em cena, na criação de mundos dentro de um mundo preexistente e de personagens reais ou ficcionadas, numa união de contrários, de níveis narrativos diferentes e géneros discordantes que nos prendem, do inicio do filme ao retorno à sala de cinema, quando as luzes se voltam a acender.(Paula Cordeiro)
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2017-05-26
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