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Os sonhadores
 
Os sonhadores
 
Baseado no livro homônimo escrito por Gilbert Adair (que assina o roteiro)Matthew (Michael Pitt) é um estudante americano, em um programa de intercâmbio em Paris. Apaixonado por cinema, ele freqüenta assiduamente a Cinemateca Francesa (a qual ele se refere como "a maçonaria de cinéfilos"). Mas a época é justamente a Primavera de 68, quando explodem revoltas estudantis por toda a Europa. Ao retornar à Cinemateca, ele encontra uma manifestação no local. É justamente nessa situação que Matthew conhece Isabelle (Eva Green) e Théo (Louis Garrel), irmãos gêmeos, tão apaixonados por cinema quanto ele, aos quais ele rapidamente se aproxima. Quando os pais se ausentam do enorme apartamento em que moram, os irmãos convidam-no para passar o tempo com eles – Matthew acaba testemunhando o estranho relacionamento entre os gêmeos, sendo vítima de seus jogos e, no processo, se apaixona por Isabelle. A coisa acaba ficando mais cascuda, eventualmente.
Os três acabam envolvendo-se mais profundamente justamente pelo cinema, conteúdo de seus jogos de adivinhação. É o bastante para o diretor colocar as manguinhas de fora. Talvez "Os sonhadores" seja o filme mais jovial (sem querer dizer imaturo) de Bernardo Bertolucci – os enquadramentos são coloridos, criativos e sua montagem nunca esteve tão dinâmica: os momentos em que a ação dos personegens são intercaladas com cenas de filmes antigos, na maioria pouco óbvios, se autocomplementando, são de fazer qualquer fã de cinema gemer baixinho de emoção. Tanto é que eu, que odeio Godard, fiquei deslumbrado com a integração de uma seqüência de "Bande à part" à trama, um dos momentos mais bonitos de "Os sonhadores".

Não é o único filme a ser citado na trama (outros são o "Scarface" original e o cult "Shock Corridor" de Samuel Fuller) – e nem os filmes são a única referência cultural: Matthew e Théo tem acaloradas discussões sobre Buster Keaton e Charles Chaplin, ou Jimi Hendrix e Eric Clapton, ao som de Janis Joplin e uns rocks que seu pai curtia; a trilha sonora consiste-se numa rica seleção destas. Tudo coisa fina.
Tão fino que Bertolucci dá uma de Larry Clark e se sai bem. Leia-se:o sexo é quase pornográfico, algumas cenas beiram o grotesco, mas tudo com tanto bom gosto que o pornográfico vira erótico, o grotesco vira plástico e as imagens soam naturais em vez de pura exploração ou tática de choque. O diretor parece desejar retomar o espírito provocador de "O último tango..." Eu é que não vou reclamar.

O núcleo dos três jovens atores é um achado, formando um círculo de performances fortes e corajosas, além de soltarem aquelas faíscas espertas cada vez que contracenam. A bela Eva Green transforma Isabelle, numa garota com falsa inocência, sedutora, mas ainda assim frágil. Louis Garrel faz de Théo, um jovem idealista misterioso, com um certo ar ameaçador. Mas o destaque vai para Michael Pitt, o irmão bastardo do Macaulay Culkin. Eu vou te dizer: tinha um vudu muito errado naquele set de "Dawson's Creek", nenhum ator que sai dali parece estar disposto a continuar fazendo papéis certinhos. Comprovando seu talento, Pitt mergulha de cabeça em seu papel e acaba realizando um trabalho primoroso, como o estudante tentado pela teia dos novos amigos/amantes. É uma performance corajosa, até porque aparece seu pau duro e pequeno.

"Os sonhadores" arma um triângulo amoroso que funciona enquanto metáfora para Bertolucci discutir as influências do vento que traz o germe da mudança, a necessidade versus a vontade de crescer. Ao final, os personagens precisam encarar suas próprias crenças e isso não só os definirá, como definirá o mundo à sua volta. É um filme realmente bonito e uma carta de amor de Bertolucci ao cinema.

"I sognatori /The dreamers" Inglaterra/Itália/França, 2003. 111 mins. Direção: Bernardo Bertolucci. Estrelando: Michael Pitt, Eva Green, Louis Garrel, Robin Renucci, Anna Chancellor. Distribuidora: Fox Searchlight.
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2017-05-26
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