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Verdade ou coincidência...
 
Verdade ou coincidência...
 
Coincidência é uma palavra sempre difícil de empregar, e poucas são as pessoas que acreditam sem reservas nos caprichos do acaso. Se seguirmos
o percurso dos Sonic Youth e dos Bad Seeds, desde a primeira metade da década de 80 até aos dias de hoje, as coincidências saltam à vista, mas de maneira a que não seja possível acreditar realmente nelas.

Considerando somente os álbuns de originais (e excluindo compilações, registos ao vivo e EP´s, particularmente numerosos do lado dos Sonic
Youth), contam-se onze para os Bad Seeds e doze para os Sonic Youth.
Se, por heresia, imaginarmos que um álbum dos segundos não existisse (neste caso, o "Dirty", por ser aquele para o qual tenho mais dificuldade em encontrar um equivalente na discografia dos Bad Seeds), é possível estabelecer um paralelo entre cada disco de uma banda com o correspondente cronológico da outra.

"Confusion is Sex", album de exórdio dos Sonic Youth ( depois do extraordinário EP homónimo, e no mesmo ano ainda de um outro EP, "Kill yr. Idols", que hoje é editado juntamente com o álbum ), publicado em 1983, antecede em um ano "From Her to Eternity", baptismo de fogo dos
Bad Seeds. Se não fosse aquilo que é realmente, "Confusion is Sex" poderia até ser um trabalho de transição entre os Birthday Party ( a
banda anterior de Nick Cave e Mick Harvey ) e os Bad Seeds, fazendo 2 em 1 das guitarras estridentes e perdidas entre feedback dos primeiros com o típico paleio "ela-é-má-mas-eu-gosto-dela-e-isso-deixa-me-louco-ai-que-eu-vou-mas-é-partir-isto-tudo" dos segundos. Em lados opostos do Atlântico, portanto, músicas como "Shaking Hell", de "Confusion is Sex" e o tema homónimo de "From Her to Eternity", dois hinos ao sofrimento amoroso e à violência doméstica, só por si mostram as afinidades entre
as duas estreias.

1985 é o ano das sequelas: "Bad Moon Rising" dos Sonic Youth e "The First Born is Dead" dos Bad Seeds, e cada uma delas fecha um capítulo na carreira dos respectivos autores. "Bad Moon Rising", menos inspirado que o seu antecessor, não deixa de explorar os mesmos territórios,
enquanto o segundo dos Bad Seeds, embora não apresente uma grande ruptura com o primeiro, mostra já um Nick Cave com uma voz mais arrastada, ao bom estilo Howlin´Wolf, atormentado e a braços com a justiça ( antecipando assim uma temática recorrente nos seus trabalhos próximos).

Dos dois álbuns seguintes dos Sonic Youth, "Evol" e "Sister", não se pode falar separadamente. Ambos de 1986, em ambos a sensualidade da voz
de Kim Gordon é mais exacerbada, a raiva de Thurston Moore mais subtil e o génio criativo de todos mais inspirado do que nunca, atirando os Sonic Youth aos píncaros, de Nova Iorque para o mundo. Por seu lado, os Bad Seeds solidificam também a sua carreira com o terceiro e quarto
álbuns de originais, "Your Funeral My Trial", de 1986, e "Tender Prey", de 1988. Estes são também semelhantes entre si e parece que, depois dos
excessos cometidos na sua juventude, Nick Cave sente que deve algo à sociedade, ou não fosse tão notória agora a ligação das suas músicas aos conceitos de crime e castigo, justiça e injustiça. Tal como "Schizophrenia", a primeira faixa de "Sister", se torna um dos temas favoritos dos fans dos Sonic Youth e passa a abrir regularmente os seus concertos, também "The Mercy Seat", primeira faixa de "Tender Prey", tem o mesmo efeito nos admiradores dos Bad Seeds e abre também o registo ao vivo "Live Seeds". Mais coincidência que isto...

Limpinho de uma longa dependência à heroína e mudado para o Brasil, Nick Cave e os seus Bad Seeds voltam à carga com "The Good Son", para
fechar mais uma fase do seu percurso. Embora contenha ainda mais do mesmo em relação aos seus predecessores, "The Good Son" antecipa um pouco o lado de "contador de histórias" típico da sucessiva faceta do vocalista da banda. "Daydream Nation", de 1988, dos Sonic Youth, antecipando em dois anos o álbum dos Bad Seeds, significa praticamente o mesmo, ou seja, o fim de uma era, mas também já com um bocadinho do som mais punk/grunge rock que estava para vir.

Em 1990, os Sonic Youth assinam pela Geffen e cria-se algum medo de que eles possam ter mudado para pior. Mas os receios são mais ou menos
rebatidos com "Goo", um álbum digno dos seus autores - os receios materializaram-se com o álbum seguinte, "Dirty", na euforia do grunge e
dos Nirvana em que os Sonic Youth se deixaram levar, e também daí ter sido esse o escolhido para ficar de fora. Parece de propósito para
tranquilizar os fãs que a primeira frase da primeira música de "Goo" seja "Here we go to another candle", quando a capa de "Daydream
Nation", o seu antecessor, era precisamente a fotografia de uma vela. E em "Henry's Dream", dos Bad Seeds, a primeira faixa tem o nome "Papa
won't leave you Henry", também como que para afirmar que estão em forma e prontos para enfrentar os anos 90. Assim começam os novos Sonic Youth e Bad Seeds...

Eles tanto prometiam que, em 1994, uns e outros lançam no mercado as suas maiores pérolas da última década: "Experimental Jet Set Trash and
No Star", dos Sonic Youth, e "Let Love In", dos Bad Seeds, duas obras-primas que põem fim às duas bandas tal como as conhecíamos anteriormente. Infelizmente, as coincidências voltaram a atacar nos trabalhos sucessivos e, tanto "Washing Machine" dos Sonic Youth, como "Murder Ballads" dos Bad Seeds apresentam uma notória falta de
ideias. Justifica-se, assim, plenamente, a viragem radical que sofreram, então, os dois conjuntos. Já não será possível ouvir a
guitarra lancinante de Thurston Moore, nem a gritaria de amante furioso de Nick Cave; os gurus do rock n' roll tornaram-se uma das bandas mais
experimentalistas e vanguardistas do pós- rock, enquanto Nick Cave (agora inseparável do seu piano) mostra o seu lado de homem maduro com as suas melodias cada vez mais sossegadas e os seus textos cada vez mais místicos. No entanto, as últimas três publicações de cada grupo ("The Boatman's Call", "No More Shall We Part" e "Nocturama" dos Bad Seeds; " A Thousand Leaves", "NYC Ghosts & Flowers" e "Murray Street"
dos Sonic Youth) não deixam de ser alternativas válidas, criadas por pessoas que não gostam de cansar nem desiludir ninguém.

Em termos de discos em sintonia, há ainda a mencionar o recente "best-of" dos Bad Seeds, que se encontra com "Screaming Fields of Sonic
Love", uma colectânea de temas pré-Geffen dos Sonic Youth; "Kicking Against the Pricks", álbum de tributo dos Bad Seeds aos seus heróis americanos, que casa com o álbum da banda "Ciccone Youth" (constituído pelos elementos dos Sonic Youth mais Mike Watt, amigo e colaborador regular do grupo), de tributo a Madonna . Particular é, também, a boa vizinhança que, quer Nick Cave, quer os Sonic Youth, mantêm com as conterrâneas estrelas pop Kylie Minogue e Madonna, respectivamente. Além disso, é curioso que, com sucessivas trocas de um e de outro lado, os músicos que se mantêm do primeiro ao último álbum sejam, nos dois casos, sempre três - Nick Cave, Blixa Bargeld e Mick Harvey nos Bad Seeds; Thurston Moore, Kim Gordon e Lee Ranaldo nos Sonic Youth. Elementos novos entraram, nos dois lados, nos últimos tempos, e com o mesmo nome - Jim O'Rourke nos Sonic Youth, Jim Sclavunos (ex-Sonic Youth) nos Bad Seeds. As "coincidências", provavelmente, não vão ficar por aqui. As duas bandas, sendo talvez os maiores "monstros sagrados" em actividade do rock independente, ainda têm muito para dar... (Amândio Lima de Oliveira)
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