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«Everybody wants to be found»
 
«Everybody wants to be found»
 
O amor não é estranho, muito menos precisa de um lugar para acontecer. Acontece.

Muito mais do que um lugar, o amor precisa de disponibilidade para se dar, e o amor de que nos fala Sofia Coppola, não precisa de sítio, hora ou motivo para acontecer. E muito habilmente, a realizadora mostra-nos isso. E os acasos, também, aqueles dos quais a essência do amor (seja ele de que natureza for) é feita. O verdadeiro amor. Aquele que foge a regras e convenções, aquele que não estava destinado a acontecer e, por isso mesmo, acontece. Porque aquilo que nos calha na vida sem esperarmos, pode, e parece ser sempre melhor.

Assim é, o amor de “Lost in Translation”. Aquele que Coppola faz crescer entre duas personagens, aparentemente dissociadas e sem qualquer tipo de semelhanças, sem qualquer laço que as ligue, excepto a língua. Excepto um enorme vazio que não conseguem preencher e que as torna tão próximas. Excepto as vidas que, de tão diferentes, numa intencionada análise se tornam tão semelhantes. Mesmo que nada disto fosse assim, mesmo que falassem línguas diferentes, o amor talvez acontecesse. É um amor que ocorre numa ligação que está para lá de qualquer tradução que as palavras possam fazer e por isso, ao longo da história, somos capazes de nos perder na tradução das palavras que só os gestos, as intenções e os olhares, conseguem decifrar.

O espaço e a distância cultural que separam o Ocidente do Oriente, funcionam como uma metáfora para descrever duas pessoas que se perderam de si próprias, e do rumo da sua vida. Bill Murray é um actor de Hollywood cujos dias de glória vão longe. O jet lag evidencia ainda mais o seu casamento já pouco feliz. Está em Tóquio para filmar um anúncio publicitário. Scarlet Yohanson é uma jovem que, não tendo muito para fazer, acompanha o marido fotógrafo numa viagem de trabalho. Os seus dias são longos e as noites passadas em branco, no bar do hotel. Bob e Charlotte conhecem-se numa dessas noites e entre eles, nasce uma adorável cumplicidade, como se fossem capazes de se traduzir um ao outro. Bob começa por ter uma atitude paternalista para com Charlotte, tentando ajudá-la a definir-se.
Contudo, o que Sofia Coppola filma é muito mais do que essa simples relação. Sofisticada, honesta e muito real, a história revela-nos duas almas gémeas que se descobrem, para se redescobrirem a elas próprias. As metáforas estão sempre presentes.

Mais do que um filme sobre relações humanas, a paródia possível a partir do título original reflecte as diferenças culturais, sociais e religiosas entre civilizações: Bob não consegue entender o realizador do anúncio que protagoniza (nós também não, pois há uma total ausência de legendas para as conversas em japonês) e Charlotte mostra-nos a cidade de Tóquio rendida aos gadgets tecnológicos ocidentais, que se contrapõe aos índices de cultura tradicional japonesa, nos templos e jardins que visita em Quioto. Do hotel (onde aliás, passam a maior parte do tempo), Tóquio é filmada ao longe, filtrada pelas enormes janelas, de onde se avista uma paisagem de arranha-céus intrigante, muitas vezes confusa e, ao mesmo tempo, fascinante ao olhar.

Extraordinariamente romântico sem usar qualquer cliché habitual do cenário de romantismo, “Lost in Translation” é um filme subtil, sobre a solidão disfarçada de companhia, e sobre os desencontros das pessoas que diariamente estão juntas, mas não próximas. Bob e Charllote funcionam como a união de contrários. Juntos, pensam conseguir ultrapassar a sua ignorância e escapar ao isolamento a que se viram vetados, naquela cidade de língua e hábitos estranhos. Juntos, tentarão também ultrapassar a solidão que os assola, dos relacionamentos de muitos, e poucos anos, em tudo semelhantes entre si, pelo fosso que existe entre cada um, e o seu par. A relação entre eles é uma tangente ao impossível e a relutância em assumir a sua possibilidade, parece em alguns momentos, ser um verdadeiro martírio que ambos assumem intencionalmente. O desejo é latente, mas não chega a concretizar-se. E é por isso que este filme é diferente. Por fugir ao tradicional esquema do «boy meets girl, they fall in love and stay together», por mostrar que a relação entre um homem e uma mulher pode dar-se para lá da relação física e, acima de tudo, por ter sido capaz de nos dar interpretações notáveis: de homem de meia-idade sem grandes objectivos, Bob revitaliza-se a si próprio no encontro com uma outra sombra de pessoa, igualmente alienada. Charlotte vai abandonando a sua desilusão no momento em que consegue redescobrir-se de forma nunca antes imaginada. Separam-se, para continuarem as suas vidas, longe de Tóquio e longe de tudo o que os aproximou, mas seguramente, as suas vidas nunca mais serão as mesmas.(Paula Cordeiro)
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2017-04-27
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