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Night of The Hunter: O Pesadelo de Laughton
 
Night of The Hunter: O Pesadelo de Laughton
 
Night of The Hunter, escrito por James Agee, crítico de cinema que adapta uma obra de Davis Grubb, foi a primeira e única realização de Charles Laughton. Actor consagrado nos palcos britânicos e cinema americano, é em 1955 que se dá o início do pesadelo de Laughton.

O filme é um rotundo fracasso comercial e incompreendido pela crítica, resultando no seu afastamento de qualquer projecto posterior. Mais tarde viria a tornar-se um filme de culto, considerado hoje por muitos uma das grandes obras do cinema dos anos cinquenta.

Um pregador psicopata assassina a sua mulher e persegue os seus enteados tentando encontrar o dinheiro roubado pelo pai das crianças. Esta sinopse poderia pertencer a um exemplo perfeito do film noir americano dos anos quarenta. Mas pertence a uma fábula hipnótica sobre a inocência e o mal.

Apresenta uma simbologia explícita sobre a luta entre o bem e o mal, o homem e a natureza, o mundo das crianças e o mundo adulto, sendo o seu objecto John Harper (Billy Chapin), empurrado para um mundo caótico repleto de questões morais, lutando para encontrar um caminho por entre dificuldades espirituais, emocionais e físicas, de forma a cumprir a promessa que fez a seu pai Ben Harper (Peter Graves, famoso pela seu papel na série Missão Impossível).

A originalidade de Night of The Hunter recai na forma extraordinária como Laughton consegue misturar elementos de mise en scéne teatrais com elementos cinematográficos, quase como que criando uma nova forma de cinema.

A subtileza dessa forma poderá estar na origem da fraca recepção que o filme teve aquando da sua estreia. A forte simbologia está sempre presente, fazendo de cada cena uma peça narrativa e uma interpretação simbólica que nos ilustra um mundo, o da infância, onde a inocência do mesmo prevalece contra a perversão do mundo adulto. Através da fotografia deslumbrante de Stanley Cortez (The Magnificent Ambersons, Secret Beyond The Door, Shock Corridor) observamos um mundo de tons surreais onde o mal surge personificado em Harry Powell, interpretado por Robert Mitchum (num dos momentos mais altos da sua carreira).

A figura de Powell representa a luta metafísica entre o bem e o mal, sendo o portador de tatuagens Love e Hate nos seus punhos, e ilustrando essa luta numa cena memorável onde encena a mesma num braço de ferro entre as duas mãos tatuadas.

É através desta cena que podemos observar claramente a estrutura simbólica de Night of The Hunter. A associação do mal a Harry Powell é clara, simples e intencional, desde o primeiro minuto do filme. Os papéis, não só de uma perspectiva dramática mas também moral, estão bem definidos indo de encontro á fábula pretendida por Laughton. Senão vejamos Willa Harper (Shelley Winters), uma mãe desinteressada, sexualmente reprimida, procurando em Powell o amor que lhe é sucessivamente rejeitado até ao seu trágico fim. Ou ainda Rachel (Lillian Gish), a personificação da maternidade, protectora e justa para com os filhos dos outros, a única capaz de entender que são as crianças que indicam o caminho certo, incapaz de ser descoberto pelos adultos que as rodeiam.

No final vemos John Harper libertar-se do fardo que carregou durante toda a sua caminhada, o dinheiro que o pai o fez prometer guardar, o símbolo, mais uma vez da mesquinhez do mundo adulto, que o impedia de voltar á sua inocência, á sua pureza, á sua natureza intrínseca.

Ao contextualizarmos a fábula construída por Charles Laughton, percebemos que se desenrola num dos períodos mais negros dos Estados Unidos, a Grande Depressão, uma época de fome e miséria. E é nas fases mais negras e desesperantes que uma pequena luz brilha com mais força, sendo os sucessivos planos de um céu repleto de estrelas, que acompanha a viagem pelo pesadelo de John Harper e sua irmã, a simbologia perfeita de um mundo adulto que esqueceu a sua origem : a inocência.

Night of The Hunter é uma obra prima que deve ser vista pelos olhos da criança que todos nós fomos.(JD)
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Título Night of The Hunter
Realização Charles Laughton
Actores Robert Mitchum, Shelley Winters, Lillian Gish, Billy Chapin, Sally Jane Bruce, James Gleason, Evelyn Varden, Peter Graves, Don Beddoe.
Ano 1955
Guião www.un-official.com/noh
 

 

   

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