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Radon Ensemble - Improwiseguys
 
Radon Ensemble - Improwiseguys
 
Deslize bar, 4 de Abril

Vejam o Radon Ensemble antes que eles sejam presos.

O colectivo vinha de um concerto no “Santiago Alquimista”, em Lisboa e de dois “Showcases” para a Rádio Universidade de Coimbra (RUC). Em causa estava não só a apresentação do Radon Ensemble, mas também a própria promoção da editora, abrindo portas para outros dos seus projectos, como do trabalho a solo de Steve Mackay.

Descrever um concerto destes tipos é tarefa difícil. Vamos lá ver se dá para entender. Primeiro porque não há alinhamento e depois porque as músicas não têm principio nem fim. Uma das melhores descrições da música deles ao vivo acaba assim: “ Aposto que o John Coltrane e o Nusrat Fateh Ali Khan devem estar com um grande sorriso lá em cima no céu.” Ah! E eles começam logo a tocar sem pré-aviso.

Mas como se descrevem quatro homens a tocar como se não houvesse amanhã?

Com a duração de 1 hora (que me pareceram 15 minutos, tal foi a vertigem!), o concerto teve a assistência de cerca de 70 sortudas, atentas e embasbacadas pessoas que só conseguiram bater palmas no fim, tão “coladas” que estavam
O primeiro tema, desconcertante, faz lembrar os putos na garagem por baixo da nossa casa. Mas melhor. Pura improvisação. Confesso que nunca vi uma coisa assim. Deitar abaixo qualquer barreira, com estilo. Fazem lembrar Einsturzend Neubaten com John ou Alice Coltrane na fase do seminal álbum “A Love Supreme”. Vê-se ali a energia dos Chemical Brothers e a sensibilidade dos Sonic Youth.

Sam, na bateria, mexe e remexe, baralha e volta a colocar as partes da bateria. Roque, da parte da casa, encaixou perfeitamente no Ensemble. Como foi convidado à última da hora, não teria grande coisa preparada, mas portou-se perfeitamente à altura, colocando tapetes electrónicos sob aquele aparente caos. Mas só aparente. Como Steve dizia momentos antes, descrever o seu som podia ser concretizado com a expressão “soft n’ loud”. Nada mais correcto. Tal como na espiral dinâmica, as músicas vão-se renovando, vai havendo momentos de tensão, de confusão, de experimentação pura, mas o resultado é perfeito, parece que está estudado.

Basta um olhar entre eles (que entram e saem, sentam-se e levantam-se à vontade, passeiam, saltam, levam os instrumentos atrás deles, enfim...) para se acertar uma ponta menos colocada. Roque, completamente entrosado, acompanha estes malucos com o seu teclado. Acho que está a tentar perceber o que é que eles vão fazer a seguir...

Scott, com o seu baixo a ser feito num “drumpad”, vai descarregando linhas plenas e poderosas do mesmo instrumento. Arrisca também na percussão. Entretanto, Steve vai, com o mesmo sax de “Funhouse” olhando para isto tudo e rindo às gargalhadas através do mesmo. Há momentos de doçura, outros de pura desbunda. O que se há -de dizer? Sam já furou a tarola da bateria e anda a passear com ela enfiada na cabeça pelo meio do público. Vamos na terceira música. Pensei que íamos chegar ao fim só com os pratos. Entretanto vai também debitando frases desconexas ao micro, assumindo a sua função de speaker. (Tem jeito para relatos de futebol).

E vamos avançando, na espiral.“Ride the snake”, dizia Steve a forçar a voz. Neste momento já tenho a certeza de que estamos todos no mesmo autocarro (ou nave cósmica). Ninguém abre a boca, ninguém se levanta para beber, nada! Começa-se a ensaiar uma balada bem ao estilo de “Jazz standard”, mas estavam a brincar connosco. Descamba logo tudo numa corrida que só acaba quando o bombo-terra de Sam já anda a passear pela sala. Scott passeia, por seu lado com o “drumpad”, tocando despreocupadamente entre um e outro copo. Não há momentos mortos, tudo se canaliza para um “free-qualquer coisa” irresistível.

Como podem reparar, ainda não disse quase nada sobre a música em si. Porque esta música não se explica, sente-se. Para vos balizar, pronto, pensem em “Mayden Voyage”, de Herbie Hancock, na fase ácida. Entretanto, Roque foi buscar uma cerveja e eles entram numa desbragada fanfarronice ao estilo do baile dos bombeiros. O saxofone a competir com os bombos e uma gorda e suada linha de baixo a vir das mãos de Scott. Assim acabaram (já é para bater palmas?...), com muito caos, muitos aplausos e o tio Steve a fazer-nos declarações de amor, gastando o resto da voz que ainda tinha.

E assim partiram, a espalhar beijos por toda a gente, deixando a Sé Catedral (a nem fazer ideia do que ali, nas suas barbas se passou) para trás.
Vejam o Radon Ensemble antes que eles sejam presos, já disse.(Pinto)
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2017-12-14
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